Arca de Noé

A meta agora é (re)construir uma Defesa Civil organizada.

Quando naquela enchente em 83/84 atingiu a casa dos meus pais, ali na Fazenda, na Rua Aladi S. Bini, eu estava com meus sete, oito anos. Lembro que a água entrou cerca de cinqüenta centrímetos, e perdemos alguns móveis. Não pensava naquela época que um dia eu passaria por tal situação. Não pensava que a água barrenta do Itajaí Mirim alagaria a nossa rua, depois subiria a calçada, tomaria nosso jardim, entraria pelos ralos e logo depois sem pedir licença invadiria minha casa. E eu teimoso, falava para minha esposa:
- Essa água vai baixar; nossa casa é alta.

Ela temerosa, claro porque muitas das coisas que temos na nossa casinha ainda estamos pagando; me pressagiava que aquilo não pararia ali e subiria mais. Eu, insisti e permaneci na casa, vendo inclusive aquela tragédia tomar nosso carro estacionado na garagem. Acompanhamos pela janelinha os botes passando pela rua com pessoas chorando, assustadas. Resisti até ás cinco e vinte da manhã do domingo, quando então apanhamos alguns documentos pessoais e resolvemos sair da nossa casa. Coloquei nossa cadelinha fox dentro da jaqueta, abracei minha esposa e com os olhos cheio de lágrimas fomos caminhando pela água barrenta que na rua já nos tomava a cintura. Uma cena de horror, vendo animais se protegendo sob os carros, sob os telhados. Muitas pessoas como eu e minha esposa também rumavam desoladas.
Lembro naquele momento que eu esqueci de tudo o que de material tinha e supliquei a Deus que protegesse a todos. Eu estava com medo !

Caminhamos pela Nilo Simas e conseguimos uma carona de um caminhão que nos levou até a rodoviária. Lá uma amiga nos levou até a casa de familiares que já nos esperavam assustados. Naquele momento até a cachorrinha procurava o calor humano, uma toalha seca. Ainda naquele dia procuramos um barco e naquela tarde conseguimos uma batera a remo (emprestada pela Associação Náutica de Itajaí situada na beira rio). E de lá esperançosos que pudéssemos recuperar algo em nossa casa seguimos ao desconhecido. Eu não esperava encontrar aquilo, era cena triste, desoladora e aterrorizante. Ao pular do barco na calçada da minha casa, fiquei somente com o pescoço para cima de fora da água. Fui subindo o terreno e ao entrar na minha casa, tudo que tínhamos erguido estava debaixo da água ou boiando. Pouco se recuperou, não podíamos também levar muitas coisas. A batera era pequena. Lembro que no trajeto de volta dei um adeus aquele nosso “cantinho”. Descarregamos o barco e com forças celestiais fomos salvando as pessoas que encontravam-se ilhadas, fazendo muitas viagens pelas ruas do Promorar.
Aquele dia ficou registrado em minha mente. Senti-me a melhor das pessoas ao ajudar o próximo. A tristeza tinha dado espaço para a solidariedade.

A água porém continuou a subir até a segunda-feira e só pude retornar a minha casa na quinta-feira para limpar e recuperar alguns pertences. Amigos verdadeiros nestas horas apareceram de tudo quanto é lado e nos prestaram ajuda na limpeza e doação de alimentos, água e colchão.

Hoje nós estamos reerguendo nossas vidas com muita vontade, solidariedade e trabalho. Agradeço a Deus por possuir um emprego, por ter conduzido minha família em segurança e por ter conhecido meus verdadeiros amigos.


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Rafael Espíndola

Tags: espíndola, experiência, itajai, rafael

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Também me senti a melhor das pessoas ao ajudar o próximo, acho que nunca consiguirei descrever tudo que vi e vivi durante a enchente. Me lembro como ficava bravo com as pessoas que estvam saindo de suas casas que não foram atingidas apenas para fotografar e acabavam atrapalhando o trabalho daqueles que ajudavam o próximo. Como virava as noites ajudando ou acordado por não conseguir dormir devido a situação.
Momentos difíceis que aos poucos vamos superando.

Responder esta

Rafael,

Agradecemos o seu depoimento. Nossa expectativa é de que esta dolorosa experiência sirva para nos manter mobilizados e articulados na busca por soluções efetivas.

[]'s,

Raciel
...

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